terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Viagens sem pagar bilhete

Acredito que as velas aromáticas são das formas mais em conta para poder viajar. Os aromas transportam-me com facilidade e num piscar de olhos estou noutro "sítio". Na escrita preciso disso, preciso de outro espaço, que me permita desligar do mundo e do seu ritmo e me deixe entrar num universo paralelo, onde eu sou a dona do tempo. Na maioria das vezes, só consigo entrar nesse "país das maravilhas" quando o meu filhote já dorme, o que me obriga a encontrar esse espaço em casa, cheio de outras coisas das quais, nem sempre me consigo abstrair: seja a roupa que devia estender, seja a refeição do dia seguinte que devia preparar, seja o que for. Então resolvi criar um ritual em que as velas aromáticas são essenciais. Ao acender uma vela, rapidamente consigo vislumbrar uma porta para esse mundo maravilhoso. O cheiro da vela neutraliza o espaço, dando-lhe outras cores e texturas. Depois de "entrar" agarro, sem demora, na caneta, na minha chave e abro a porta às personagens que aparecem por ali, prestes a ingressarem numa história. As minhas velas de eleição para estas viagens são as da Rituals, absolutamente fantásticas que tornam rotinas em rituais.








terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Naquele momento dei-lhe o mundo

Tudo indicava que ia ser mais um sábado de muito calor. A sesta estava difícil. Decidimos ir à praia. O cachopo pegou nas pás, baldes e toda a parafernália de construções na areia e lá fomos ver o mar. Chegámos. O troca-tintas estava inquieto, tinha imensa coisa para fazer. Instalámo-nos e fomos molhar os pés. Posto isto, começa a correr em círculo. Corria pela areia, molhava os pés, saltitava numas pequenas piscinas que se tinham formado, voltava a pisar a areia, mantendo-se nesta corrida durante, sem exagerar, quinze minutos. Eu fiquei no meio do círculo a observá-lo.  O principezinho estava completamente em êxtase. Naquele instante, senti que lhe tinha dado o mundo, nada naquele momento lhe podia trazer mais felicidade. Ria-se, dava pequenos gritos de excitação e corria, corria o mais que podia, corria só porque sim. Fiquei emocionada. Algo tão simples, mas que fez a diferença no dia dele e no meu, porque ainda hoje me lembro do seu rosto naquela tarde quente. Uma lembrança que me ajuda a relativizar problemas que não são problemas, tristezas que não são tristezas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

"E agola mãe, que fajemos?"

Eram horas de dormir, mas o cachopo ainda queria conversa e, para ser sincera, a mim também me apetecia. Peguei-o ao colo e sorrimos. Aproximámo-nos da parede cheia de fotografias do quarto dele e comecei a descrever aqueles instantes de vida, outrora fixados. "Olha, aqui estás tu na banheira. Lembras-te? Com o cabelo cheio de espuma? Nesta, estás ao colo do pai. Já viste, têm camisolas iguais, uma grande e uma pequenina. Aqui estás a brincar dentro da caixa dos legos." O seu olhar estava risonho, lembrava-se. Depois, com o seu dedinho, apontou para uma fotografia e perguntou: "E este bébé, quem é?", "Esse bébé eras tu quando eras muito, muito, muito pequenino." Ficou sério. Olhou para mim, voltou a olhar para a fotografia e disse-me com um pequeno beicinho: "E agola mãe, que fajemos?" Senti alguma tristeza e talvez um pequeno pânico no seu olhar.  Não estava a conseguir processar aquela informação. Onde estava aquele bébé naquele preciso momento? Tinha-se perdido? E quem tratava dele agora?  Olhava como se uma parte dele estivesse esquecida algures. "Tu és aquele bébé mas cresceste. Os olhos são os mesmos, estas bochechas são as mesmas, mas cresceram." Com um ar ainda meio desconfiado disse: "Aaaah... Já pechebi..." Não sei se percebeu, mas ficou mais tranquilo. O que iria naquela cabecinha?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015