segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Voar: Liberdade ou Fuga?


Voar: liberdade ou fuga? Espairecer ou evitar? Sentir o momento ou fugir dele? Na verdade, acho que pode ser tudo isto. Podemos querer voar para sentir o ar na cara, ou querer voar porque nos queremos ausentar. Talvez não seja mau termos esta vontade de nos ausentarmos, talvez nesse voo consigamos o distanciamento certo para observar as nossas histórias, talvez esse afastamento, mais tarde se traduza numa aproximação a nós, quando decidirmos regressar às nossas vidas. Temos somente que saber gerir o tempo do voo. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O importante levamos no coração


Muitas vezes, quando estou num sítio que me enche a alma, penso: "hummm... Devia tirar umas fotografias..." E se por acaso tiver levado a máquina, começo a disparar nervosamente para vários sítios para fixar o instante. Tento encontrar o ângulo certo para descrever a emoção do momento, mas fico sempre insatisfeita, nunca é bem aquela fotografia... e sem dar por isso, o momento foi-se. Depois penso: "Se este espaço foi mesmo especial, levo-o guardado em mim." E vou-me embora com um sorriso. Estes pensamentos repetem-se diversas vezes em várias situações da minha vida e tornaram-se mais frequentes depois do meu avô ter sido atropelado e perdido a memória. De que lhe valeram as fotografias que guardou na gaveta? Para ele, aquelas imagens passaram a ser apenas rostos de estranhos que o incomodavam por não os reconhecer. 
Lembro-me de, numa tarde, ter ido lanchar com ele à clínica, onde estava internado. Eram encontros terríveis, desprovidos de qualquer emoção, mas eu, a todo o custo, tentava que houvesse ali uma emoção, um fluxo de sentimentos.  Nesse dia, enquanto comia a sua sandes de fiambre, iniciei um jogo sem que ele se percebesse: "Se a Inês fosse uma fruta, o que seria?", Prontamente respondeu: "Uma tangerina.", "Porquê?", perguntei. "Porque é docinha." Os meus olhos brilharam. "E a avó Nini, se fosse uma fruta o que seria?", "Um pêssego.", Porquê?", "Porque tem a pele macia." Nesse dia regressei a casa com o coração cheio, o meu avô afinal guardava consigo emoções, o puzzle da sua memória estava baralhado mas a essência continuava lá. 
A última vez que a minha avó esteve com o meu avô foi no dia 20 de Dezembro de 2002, quando o foi visitar à clínica. As conversas que tinham eram banais, perguntas e respostas que os mantinham ocupados durante a visita. Naquele dia, quando já se ia embora, olhou para o meu avô e perguntou-lhe: "Sabes que dia é hoje?", sem hesitar, o meu avô respondeu: "É o dia do casamento." E era verdade, naquele dia faziam 55 anos de casado. A minha avó ficou com lágrimas nos olhos, a ligação por breves instantes tinha sido estabelecida. Três dias depois o avô Zé morreu. Mas fosse para onde ele fosse, ia levá-la consigo, o importante guardou no seu coração.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Rodízio de Anedotas



É assim que recordo as noitadas de anedotas que passava com os meus amigos. Era, na verdade, um rodízio porque estávamos ali deliciados a saborear a forma como cada um contava determinada piada. O prazer estava na maneira como a anedota era contada, nos gestos, nos sotaques, nas expressões utilizadas. Ficávamos horas a "petiscar daquele rodízio". O mais extraordinário, e que recordo com mais saudades, é que, na maioria das vezes, todos já sabíamos as anedotas , mas ouvi-las serem contadas pela pessoa certa era delicioso. Lembro-me tão bem de dizerem: "Essa não, essa não! Essa conto eu! Tu contas aquela porque fazes muito bem tal parte!" Às vezes, olhava para as pessoas à nossa volta, estavam intrigadas: "Porque é que na naquela mesa se ri tanto?" Não, não estavamos a fofocar, não, não estavamos a comentar os sapatos de ninguém, estavamos simplesmente a divertir-nos e a desfrutar da companhia espectacular uns dos outros!...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Distância de Segurança


Tal como já escrevi anteriormente, desde que sou mãe, tornou-se fácil interpretar a linguagem corporal dos outros pais. Outro dia, deparei-me com uma situação que é curiosa e se for observada fora do contexto pode até ser bastante divertida. É chamada a "Distânia de Segurança". Quando os nossos filhos já andam com uma certa naturalidade e sem cair, começamos a dar-lhes alguma liberdade para andarem e correrem à vontade. Porém, pai que é pai ou mãe que é mãe, tem estipulado na sua cabeça uma distância de segurança. Uma distância que no instante que é ultrapassada leva-nos, enquanto pais, a iniciar uma corrida desalmada para apanhar o cachopo, que corre como se não houvesse amanhã. Outro dia, fui com o meu filhote passear para a Expo. Estava a tarde ideal para jogar: "Cansá-los bem, para Dormirem ainda melhor!". Certamente, um jogo familiar para muitos de vocês. Enquanto jogávamos a esta maravilhosa brincadeira, apercebi-me que não eramos os únicos, vários pais estavam ali a jogar ao mesmo. Observando de fora, aquela zona da Expo parecia um local de treinos, de corridas que estavam a acontecer paralelamente, para uma modalidade desportiva. Vários meninos e meninas corriam, cada um com o seu pai, ou melhor dizendo, com o seu personal trainner que, verdade seja dita, fazem uns sprints absolutamente extraordinários, dignos de quaisquer olimpíadas! 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A Avó Nini está aí para as curvas!



Não é para me gabar, mas até costumo ter o sentido apurado para perceber o duplo significado de expressões em geral. Porém, há dias, que parece que tenho o botão da perspicácia desligado e as coisas passam-me ao lado, ou melhor dizendo, interpreto as expressões no sentido literal. Passemos a um exemplo: a minha avó Nini já tem 84 aninhos e, de vez em quando, vai passar umas temporadas a casa dos meus pais ao Alentejo para mudar de ares. Numa dessas vezes, dei-lhe boleia na sua viagem de regresso a Lisboa. Aproveitámos o caminho para pôr a conversa em dia. Às duas por três, diz-me ela: "Nem sabes, num destes dias, plantei cá uma figueira!... Nem imaginas!...", "A sério, avó?",  "Sim, uma grande figueira!", "Ai avó, só tu para ires para o Alentejo plantar figueiras!...". Ri-me e avó Nini  riu-se também. Depois, ficámos caladas durante algum tempo. Eu continuei a pensar na plantação da figueira: "Mas que raio? Porque é que os meus pais haviam de deixar a minha avó plantar uma figueira? Ela já não vai para nova... Ok, eu sei que gostam de a manter entretida, ela própria gosta de se sentir útil, mas plantar uma figueira não é propriamente fazer crochet. Será que ela andava sem fome e a jardinagem foi a forma que arranjaram para lhe abrir o apetite?" Enfim, tinha que averiguar a situação. Chegámos a Lisboa. Deixei a  avó Nini na sua casa e depois segui para a minha. Já não conseguia aguentar mais, tinha que ligar à minha mãe. "Estou, olha, já estamos em Lisboa. A avó já está em casa. Mãe, tens que me explicar uma coisa: Que raio de actividades vocês andam a organizar para avó? Ela disse-me que andou a plantar figueiras.... Mãe, a avó tem 84 anos, não vos ocorreu uma coisa mais simples? É que...", "Sónia! Calma!" Interrompeu a minha mãe, aproveitando, para me ligar o botão da perspicácia: "Plantar Figueiras, quer dizer caír. A avó enquanto fazia a sua caminhada pelo pomar escorregou, mas não foi nada complicado." E depois começou-se a rir e com razão: "Ai Sónia... Só tu...", "Pois...", disse eu, sorrindo envergonhada. "Beijinhos". Desliguei o telemóvel e comecei a rir por dentro. Agora percebo porque é que avó Nini se riu quando disse que tinha plantado uma figueira, porque apesar da idade continua a ser uma senhora encantadora com um grande sentido de humor!