segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O Filme da Minha Vida




O cachopo é muito traquina e activo, mas quando ouve o Ruca na televisão pára tudo: primeiro corre de um lado para o outro excitado e com os braços no ar e depois acalma-se, senta-se e eu faço-lhe companhia. Ficamos os dois no chão: ele a olhar para a televisão e eu a olhar para ele. Ali estamos deliciados a ver os nossos protagonistas preferidos: ele vê o Ruca e eu vejo o Principezinho. O cachopo já conhece os episódios de cor. Repete as frases do Ruca, e eu já conheço meticulosamente todas as expressões do rosto do meu cachopo de acordo com a história que ele avidamente assiste: o sorriso contido à espera do momento certo para soltar a gargalhada, os olhinhos pequeninos a absorverem todos os pormenores e a antecipar as frases do Ruca e dos seus companheiros, o beicinho que faz quando o "seu amigo" tropeça, e por aí fora. Dizem-me:  "aproveita, eles crescem num instante..." Sim, é verdade, mas sinto que tenho conseguido gerir o tempo e suspendê-lo numa bola de sabão para poder apreciar todas as emoções espelhadas nos seus olhos. Fico encantada a desembrulhar cada momento, cada expressão, cada gesto do meu Principezinho. Ali estamos os dois extasiados a ver o filme da nossa vida.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Afinal tenho uma espécie de Varanda




Há uns tempos atrás falei-vos da minha necessidade de ter uma varanda... Um espaço de tempo, um tempo com espaço para me desconectar do mundo e me ligar a mim, ao meu turbilhão interior.  A não ser que mudasse de casa, não ia conseguir arranjar uma varanda. Afinal não é nada que se possa comprar e mandar instalar. Se calhar um dia destes o Ikea ainda inventa uma coisa dessas, mas até lá tinha que pôr a imaginação a funcionar, pois encontrar uma varanda tinha-se tornado num assunto de carácter urgente. Não foi preciso pensar muito para perceber que havia outro espaço em casa com as mesmas funcionalidades que procurava numa varanda. O cachopo já dormia, os meus afazeres diários estavam cumpridos, era o meu momento. Fui tomar um duche quente. Entrei na banheira e fechei a cortina. Tinha entrado na minha varanda, no meu espaço de tempo. Conseguia ouvir-me, os pensamentos estavam fluídos, o som da água ajudou-me a relaxar, os vapores permitiram uma breve abstracção. Fechei os olhos e esbocei um sorriso: afinal ia todos os dias à "minha varanda" e não me tinha apercebido.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Aviar uma receita não é tão simples como parece



Mais um tesourinho de gargalhadas guardado no baú das bolas de sabão. Tinha ido passar o fim-de-semana a casa dos meus pais. Era sábado de manhã e havia rotinas para se cumprir: ir buscar o pão, ir ao supermercado, ir aos jornais e outros pequenos afazeres. O nosso cão tinha sido atropelado há três dias e era preciso também ir à farmácia. Eu ficara incubida das tarefas da rua. Em relação à farmácia o meu pai disse-me: "Vai à farmácia, é preciso antibiótico para o cão, está aqui a receita." E lá fui eu tomar conta da ocorrência. Tudo correu dentro da normalidade e sem grandes precalços até chegar à farmácia: "É para aviar esta receita." disse. O farmacêutico leu, colocou o antibiótico em cima do balcão e perguntou-me: "Os supositórios de glicerina são para criança ou para adulto?" "Supositórios?" "Sim, está aqui na receita." Não sabia que o meu pai tinha acrescentado esse medicamento, mas respondi prontamente: "Pois, não sei. É para o cão, não tenho a certeza da idade, mas é grande." O farmacêutico sorriu e disse: "Nesse caso é melhor levar para adulto." "Pois, é capaz de ser melhor." disse eu e pensei também com um sorriso: "O meu pai a pôr um supositório no cão vai ser bonito de se ver..." Mas, a verdade é que a minha missão estava cumprida. Eu tinha aviado a receita, em relação à missão do meu pai é que não estava tão certa que tivesse sucesso. Cheguei a casa: "Está aqui tudo o que pediram. Depois pai, hás-de me explicar como se põe um supositório num cão." O meu pai olhou-me surpreendido e respondeu: "Mas que supositórios?... Ah!... Os supositórios da receita? Esses são para nós. Acabaram cá em casa , por isso pedi para comprares." E começou-se a rir: "Imagino a conversa na farmácia." e ria, ria, ria, ria...
Vá riam-se vocês também que nem uns perdidos. A mim também já me dói a barriga de tanto rir. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Sala de Espera


"Não, isso não é para mim, o meu tempo já passou." ; "Já estou velhote, não se preocupe comigo. Já vivi o que tinha a viver."; "Afinal, não vamos almoçar. Já estamos velhos para esses convívios, não vale a pena." Ouvimos muitas vezes estas frases dos mais idosos e sinceramente que me incomoda, que me perturba pois vejo nessas pessoas uma morte antecipada, uma postura que muitas vezes é provocada pela própria sociedade, por familiares ou simplesmente a perspectiva da própria pessoa sobre a vida. A sala de estar das suas casas passou a ser a sala de espera... É terrível e revoltante pensar nisto mas a verdade é que acontece. Está em nós mudar o olhar deles sobre as coisas e provar-lhes a sua importância nas nossas vidas: pela experiência que têm, pela paciência que tiveram connosco quando eramos pequenos, que continuam a ser-nos queridos e úteis, que continuam a ser pessoas e não se foram tornando transparentes ao longo da sua vida. A sua presença continua a marcar os nossos dias. Quando vou na rua desafio muitas vezes os olhares dos velhotes com um "bom dia". Sinto que se surpreendem ao perceberem que reparei neles, que desafiei o seu olhar que ainda está cheio de vida, uma vida contida. Devolvem sempre um sorriso e retribuem o cumprimento: "Bom dia, menina." É um gesto simples e que pode fazer a diferença.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Breves Momentos numa Realidade Paralela




Nos meus tempos de estudante vivi numa residência universitária. Foram 5 anos da minha vida, que recordo com saudade e com um brilhozinho nos olhos. Conheci pessoas extraordinárias, aconteceram boas partilhas que guardo comigo e episódios divertidos que vou ter que contar. Seria um crime guardar estes tesourinhos!... Então aqui vai um momento hilariante que me aconteceu e digo momento porque foram realmente breves momentos, embora na altura me tenha  parecido uma eternidade. Aconteceu provavelmente no primeiro mês que lá estive e na primeira vez que fui à sala da televisão. Era sábado à noite e decidimos ir para a sala  ver um episódio de Ficheiros Secretos.  Eu não era grande fã da série mas fui pelo convívio. Vimos a primeira parte até ao intervalo e depois decidi ir à casa-de-banho. Uma das particularidades desta residência é o elevador. Tinha daqueles com duas portas de grade com fole, uma de cada lado do elevador. De um lado ficavam os quartos das estudantes e do outro os quartos das senhoras da comunidade e de uma forma geral, não era suposto circularmos nesse lado. Pois é, eu entrei no elevador, subi ao 5º andar e fui até ao fundo do corredor onde era o meu quarto. Parecia tudo mais calmo e escuro que o habitual. Na verdade o corredor era estranho... Cheguei ao fundo do corredor e não dei com o quarto. "Mas como é possível?" Voltei a confirmar que estava no 5ºpiso... "Aí... mas afinal?" Voltei para o elevador, desci e voltei a subir e nada mudara... Confirmava-se: O meu quarto tinha desaparecido!... "Raios partam os Ficheiros Secretos!!" Aquilo mais parecia a continuação do episódio que passou da televisão para aquele corredor. "Estou numa realidade paralela, só pode..." pensava. Bem, tinha que voltar ao ponto de partida e  resolver este mistério, este caso paranormal. Não podia voltar para a sala de televisão sem ter encontrado o quarto perdido. Desci mais uma vez... E de repente ocorreu-me que deveria tentar a outra porta do elevador. A medo corri a porta de fole... Desta vez senti que estava atravessar a fronteira para outro mundo... mas uma vez começada esta viagem tinha que a acabar... E não é que no fundo do corredor estava o meu quarto!... "Ufa!... Missão cumprida." O regresso à sala de televisão foi fácil. O episódio dos Ficheiros Secretos estava quase no fim, mas isso era o menos, estava sã e salva!...
Podem achar que exagerei, que me poderia ter ocorrido mais cedo que me tinha enganado na porta de saída do elevador, mas quem me conhece sabe exactamente que é um episódio absolutamente possível para a minha pessoa, tanto é que me aconteceu!...